Se você já passou por aquela situação constrangedora de ligar para a UTI, tentar transferir um paciente e ser questionado, rechaçado ou simplesmente não ter resposta para o que o intensivista perguntou — você não está sozinho. Isso acontece com a maioria dos médicos de pronto-socorro em algum momento da carreira.
A boa notícia? É completamente evitável. Com o checklist certo, você chega na ligação preparado, transmite confiança e evita o desgaste desnecessário. Abaixo, apresentamos os 10 pontos essenciais que você precisa verificar antes de passar qualquer caso para o intensivista.
Antes de ligar, certifique-se de que você levantou todos os antecedentes pessoais, medicações de uso contínuo e alergias do paciente. Parece básico, mas é surpreendentemente comum fazer a ligação com informações incompletas no prontuário. O intensivista quase sempre vai perguntar sobre isso — e você não quer ser pego de surpresa.
Essa pergunta parece óbvia, mas muitos médicos não conseguem responder com clareza quando questionados. Antes de discar, saiba exatamente qual é a indicação de UTI. Aliás, aproveite esse momento para confirmar se o paciente realmente precisa de UTI ou se uma enfermaria daria conta.
Verifique ureia e creatinina. Se houver disfunção renal, o intensivista vai querer saber — e mais: vai querer saber se é pré-renal (problema de volume, antes do rim) ou pós-renal (problema de obstrução, depois do rim, geralmente de causa urológica). O tratamento é completamente diferente, e deixar isso claro demonstra raciocínio clínico sólido.
Havendo alteração renal, o intensivista vai perguntar se existe uma gasometria. Ela é fundamental para avaliar o estado metabólico do paciente — especialmente para identificar se há urgência dialítica. Creatinina alta nem sempre significa urgência dialítica, e o contrário também é verdadeiro. A gasometria é quem define.
Peça o coagulograma (TP, TTPA, INR). Isso é especialmente crítico quando existe possibilidade de procedimento invasivo — como um cateterismo cardíaco. Um paciente com INR descontrolado não pode ser submetido a determinadas intervenções, e o intensivista vai questionar se você se preocupou com isso.
Se houver indicação de imagem — tomografia de tórax, de abdome, qualquer que seja —, o ideal é resolver antes da transferência. Levar o paciente para a UTI e depois precisar descer para fazer exame gera retrabalho e desgaste para toda a equipe. Atenção também ao detalhe: tomografias de abdome, quando indicadas por suspeita de causa intra-abdominal, devem ser solicitadas com contraste.
Você é o médico que está passando o caso — e como médico, você precisa saber qual é o próximo passo. Qual antibiótico foi prescrito? Qual a indicação cirúrgica? Vai ser feita trombólise ou intervenção coronariana percutânea? O intensivista vai perguntar, e você não pode simplesmente responder que não sabe.
Antes de passar o caso — de preferência, antes de nem ligar —, vá até a beira do leito. Verifique pressão arterial, frequência cardíaca, frequência respiratória, temperatura, saturação. Se o paciente estiver em uso de droga vasoativa, saiba qual é, em qual dose e qual a diluição. Paciente chegando chocado na UTI sem que você tenha sinalizado isso é problema garantido.
O intensivista quer receber o paciente o mais estável possível. Se houver indicação de intubação, faça antes de transferir. Quanto ao acesso central, a maioria das instituições permite que seja passado no pronto-socorro — e o intensivista vai agradecer. Mandar paciente em uso de noradrenalina por acesso periférico sem justificativa é pedir para receber um telefonema nada agradável.
Esse ponto é frequentemente esquecido — e gera conflitos desnecessários. Converse com a família antes da transferência: explique o que está acontecendo, o que vai ser feito e o que pode ocorrer. Quando o paciente chega à UTI sem que a família tenha sido informada, o ônus recai sobre o intensivista, que muitas vezes já está sobrecarregado.
Esses 10 pontos formam um checklist simples, mas poderoso. Com ele em mãos, você chega na ligação preparado, transmite segurança e evita o desgaste com o colega intensivista. Não se trata de perfeição — trata-se de não deixar brechas para perguntas que você poderia ter antecipado.
Anote, salve no celular, imprima e cole no jaleco. No próximo plantão, você vai perceber a diferença.

Médico graduado em 2013 pela FAMEPP. Atua há mais de 10 anos unicamente com medicina de emergência e plantões. Criador de um dos maiores canais no Youtube de medicina de emergência do Brasil, o E-mergência, com quase 80 mil inscritos.